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“Uma montanha pode ser uma fotografia muito bonita, mas também tem caras muito feias”. A frase do alpinista Rui Rosado inicia e resume aquela que foi a reportagem mais difícil da minha vida, em dezoito anos de jornalismo, catorze dos quais ao serviço da SIC.
Saí de Lisboa em meados de Setembro com o objectivo de cobrir a previsível glória e conquista da primeira expedição portuguesa a uma montanha de 8 mil metros. Voltei mês e meio depois, com uma reportagem marcada inesperadamente pela morte de Bruno Carvalho e com o pior dos dilemas criativos e deontológicos para um jornalista: como contar uma história com fim triste, sem ser piegas nem sensacionalista? Como explicar em televisão que, apesar da fatalidade, esta foi a mais gloriosa época de sempre do alpinismo nacional nos Himalaias? Como editar as últimas imagens do grande alpinista, e alma da expedição, que foi o Bruno?

A expedição ao Shisha Pangma (8013m), a montanha do Tibete que os Antigos veneravam como o “Trono dos Deuses”, tinha todos os ingredientes para ser um sucesso.
Bem planeada, liderada pelo grande “himalaísta” João Garcia, integrava Rui Rosado, Hélder Santos, Bruno Carvalho e Ana Santos Silva, membros da actual “geração de ouro” do alpinismo nacional; todos já com experiência nas mais altas montanhas do Mundo, onde se respira menos de 50 por cento do oxigénio, não há formas de vida permanente, se leva mais de uma hora para subir apenas cem metros.
Durante três semanas tudo correu conforme o previsto. O grupo montou os acampamentos de altitude, na face norte da montanha, adaptou o corpo ao ar rarefeito, aproveitou a primeira “janela de oportunidade” para o assalto ao cume.

O jornalista da SIC Aurélio Faria acompanhou a expedição ao Shisha Panga do princípio ao fim. O dia-a-dia pode ser recordado num blog na SIC Online.
Por razões físicas, Ana e Hélder não atingiram o objectivo. João, Rui e Bruno chegaram aos 8013 metros no dia 31 de Outubro. Na descida, Bruno foi encontrado sem vida, devido a uma queda inexplicável num declive de 40 graus, a escassos 400 metros do Campo 2 e ½ (6900m) onde ia passar a noite, celebrar certamente a conquista do seu primeiro cume de 8 mil metros.
“Ele era a alegria do campo base!” No fim da expedição, destroçados pela dor e pela tristeza, os amigos companheiros de expedição dão todos a mesma imagem de Bruno.
Três semanas depois, penso ainda constantemente no alpinista do sorriso permanente que, durante a expedição, me fechou apenas uma vez o semblante, para pedir a transcrição da frase de Fernando Pessoa que lhe revelara no início da escalada: “Nas encostas dos Himalaias só existem as encostas dos Himalaias. É à distância, ou na memória, ou na imaginação que os Himalaias assumem toda a sua altitude, e até um pouco mais.”
Aurélio Faria Jornalista
Reportagem SIC Título: "No Trono dos Deuses" Jornalista: Aurélio Faria Imagem: Expedição Shisha Pangma Montagem: Nuno Duarte Santos Grafismo: Pedro Marques Pereira Produção: Isabel Mendonça Coordenação: Daniel Cruzeiro Direcção: Alcides Vieira
Grande Reportagem SIC. Todos os domingos, a seguir ao Jornal da Noite. Comentários e sugestões: reportagem@sic.pt
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