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TERRA ALERTA Espaço de informação sobre Ambiente, às quartas-feiras no Jornal da Noite
Terra Alerta é um espaço de reportagem televisiva que conta, a partir de agora, com um site onde se podem ler os artigos e visionar os vídeos. Este blog mantém-se, mas passa a ter notas mais pessoais. No Ano Internacional do Planeta Terra, continuamos a alertar para as ameaças e oportunidades da chamada crise global do ambiente, com os pés assentes na realidade portuguesa.
Gostaríamos de contar com os seus comentários e sugestões neste blog, ou para o endereço terraalerta@sic.pt.
Por Carla Castelo
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O que a natureza nos dá
Nestes 8 anos em que tenho acompanhado de perto as questões do ambiente e do chamado desenvolvimento sustentável, tenho-me muitas vezes deparado com comentários depreciativos sobre projectos ou preocupações de organizações de defesa do ambiente e conservação da natureza. Há pouco tempo alguém se insurgia contra as preocupações dos ambientalistas em relação aos eventuais impactos da nova rota de ferry-boats para Tróia na população de roazes do Sado, dizendo que os golfinhos não nos dão que comer.
Ora, poderia aqui estar com grandes considerações sobre a importância ecológica dos golfinhos e sobre a produtividade dos ecossistemas, mas dou apenas um exemplo muito prático. Os golfinhos e as baleias podem dar, e dão de facto, de comer a muita gente. O simples facto de existirem, e de poderem ser observados, atrai milhares de pessoas que se deslocam de propósito a locais, como os Açores, para os observarem no meio do oceano. A baleação deu lugar ao whale watching.
Nas últimas férias de Verão, passei uma semana inesquecível na ilha do Faial e paguei 170 euros para ir com a família observar cetáceos, durante algumas horas. Saímos para o mar por volta das 9h00 e cerca das 11h00 conseguimos ver cachalotes ao largo do Pico. Sempre a uma distância respeitadora, vimos e ouvimos a respiração e depois vimos a cauda quando mergulharam. Foi magnífico. Muito melhor do que qualquer documentário sobre vida selvagem.
Tal como eu, há muitas pessoas no mundo inteiro que pagam para ter este tipo de experiência de fruição e contacto com a natureza. Pode ser ver golfinhos, caminhar a pé em áreas protegidas, descer rios mais ou menos selvagens, observar aves ou simplesmente olhar uma paisagem, uma árvore ou uma folha. Há coisas que têm um enorme valor, tanto que até costumamos dizer que não têm preço. Se o cidadão comum pensar assim, talvez comece a valorizar termos uma colónia de golfinhos no Sado, baleias nos Açores, lobos no Alvão e em Montesinho, ou uma enorme diversidade de aves no Estuário do Tejo ou nas planícies alentejanas. A natureza dá-nos efectivamente de comer, não só pela sua produtividade directa, mas também indirectamente, por todas as actividades económicas – sendo o turismo apenas uma delas – associadas ao aproveitamento sustentável dos recursos naturais.
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O eléctrico e a cidade
As cidades são por definição lugares com uma forte concentração populacional e por tradição lugares com uma forte concentração de veículos, ruído e poluição do ar. Mas este modelo urbano, sem qualidade de vida, está cada vez mais esgotado e há cidades que estão a mudar. Essa mudança faz-se em diversas frentes, sendo a mobilidade uma das principais. Os chamados meios suaves de transporte, silenciosos e sem emissões poluentes, vão ganhando terreno.
Em Londres, estão a surtir efeito uma série de medidas políticas, a começar pela cobrança de uma taxa de congestionamento no centro da cidade, destinada a desincentivar a entrada de veículos poluentes. Por outro lado, a isenção dessa taxa e o carregamento e parqueamento gratuitos para veículos eléctricos incentiva a utilização destes. O objectivo é reduzir a poluição atmosférica e o ruído, contribuindo para um melhor ambiente urbano.
Em Lisboa, também temos níveis demasiado elevados de poluição do ar e de ruído mas, até agora, poucas medidas políticas para desincentivar a utilização do omnipresente automóvel particular. Contudo, há sinais de mudança. Desde logo, os munícipes parecem cada vez mais interessados em novos meios de transporte. Há uns anos, ver uma bicicleta nas ruas da capital era absolutamente inaudito e agora não há dia que não nos cruzemos com várias. As motos eléctricas também parecem conquistar cada vez mais adeptos.
A colocação de 6 pontos de carregamento para veículos eléctricos, por iniciativa da Lisboa E-Nova – Agência Municipal de Energia e Ambiente, é um bom exemplo de que é preciso muito voluntarismo para pôr boas ideias em prática por cá. Foi precisa uma autorização especial transitória do Ministério da Economia porque, como nos explicou Delgado Domingos da Lisboa E-Nova, “em Portugal tudo o que não é expressamente autorizado é proibido”.
Por ser de uso exclusivo da Polícia Municipal pode parecer mais uma medida meramente simbólica, mas demonstra a viabilidade do modelo e quebra o tal ciclo vicioso que Delgado Domingos refere.
Contudo, é preciso olhar para esta questão de uma perspectiva ampla e não fechada nos limites da cidade.
A mobilidade eléctrica só fará sentido se a electricidade usada for cada vez mais produzida através de fontes renováveis e não proveniente de centrais térmicas a carvão, petróleo ou gás natural. Caso contrário, os veículos eléctricos não serão uma opção verdadeiramente limpa. Não podemos esquecer que os veículos eléctricos poderão ser “zero emissões” apenas a nível local. É por isso que o anúncio da Chanceler Angela Merkel, de lançar a maior infraestrutura do mundo para veículos eléctricos com 500 postos de recarga em Berlim, não entusiasmou os ambientalistas alemães, que receiam um pesadelo de carros eléctricos movidos a carvão. Afinal, um carro eficiente a gasóleo pode ser bem menos poluente e também menos emissor de gases com efeito estufa do que um eléctrico que usa energia com origem em velhas centrais a carvão.
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“Power to the people”?
A iniciativa “Renováveis na Hora” foi anunciada como uma excelente oportunidade para os consumidores domésticos de electricidade. Uma forma de porem a respectiva casa a trabalhar e com isso ganharem até 300€ por mês. O processo foi apresentado como simples e rápido, ou não fosse uma medida do Simplex. Parecia realmente uma boa oportunidade, a que o cidadão acederia sem burocracias desnecessárias.
Feitas as contas, com uma remuneração de 0,65€ por quilowatt-hora produzido, ser microprodutor será um bom investimento a 10 anos, em média. Só que um investimento da ordem dos 20 mil Euros não está ao alcance de qualquer pessoa. Não estará certamente ao alcance da maioria das famílias portuguesas, muito menos agora, com a crise que atravessamos. Quem está a aderir são sobretudo empresas e entidades públicas e não cidadãos particulares. Lá se vai o “power to the people”...
Quanto à simplicidade do processo, esbarramos desde logo com a lentidão do portal em dia de registo. Confirmei as queixas de muita gente que ficou de fora por não conseguir aceder ao site. Tentei inscrever-me em 2 sessões sem sucesso.
Mas o que é me parece mais grave, é que a euforia dos registos pode afinal ser uma “bolha” e não corresponder ao número de instalações. Segundo dados da própria Direcção-geral de Energia e Geologia, nas primeiras 4 sessões (entre Abril e Julho) a eficácia dos registos foi em média de 54%. Ou seja, cerca de metade das pessoas que se registaram não pagaram o registo e acabaram por desistir do processo.
O limite de 10 megawatts a instalar num ano é muito pouco, significa apenas cerca de 3 mil sistemas a nível nacional, mas, se não for alcançado, então será um duro revés para a microprodução descentralizada e democratizada de energia eléctrica a partir de fontes renováveis em Portugal. O futuro de que se fala, de cada cidadão produzir electricidade em casa para vender à rede ou para auto-consumo (situação que o programa “Renováveis na Hora” exclui), afinal poderá ainda estar muito distante no nosso País.
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Sem a devida protecção
Almeirim é uma daquelas pequenas cidades ribatejanas, praticamente planas, onde é natural ver gente a andar de bicicleta, sobretudo pessoas mais velhas que, desde sempre, se habituaram a pedalar, primeiro para a escola, depois para o trabalho.
Apesar da naturalidade com que muita gente anda de bicicleta em Almeirim, com o aumento do número de automóveis em circulação nas últimas décadas, a questão da segurança dos ciclistas não deixou de se colocar. Para responder a essa questão a Câmara Municipal pensou fazer o que não é novidade lá fora, em muitas cidades europeias onde a bicicleta é encarada como um meio de transporte urbano que é preciso promover por razões ambientais (melhoria da qualidade do ar), económicas (eficiência energética) e de saúde (redução da obesidade e doenças cardiovasculares), e não como um mero veículo desportivo ou de lazer. Pensou a Câmara pintar no chão, nalgumas vias estreitas do centro da cidade, uma sinalética que indicasse a prioridade à bicicleta. Os carros não seriam impedidos de circular, mas, havendo uma bicicleta (velocípede no Código da Estrada), teriam de lhe dar prioridade.
Contudo, o Código da Estrada português não prevê esta situação – prevê sim, estranhamente, que os velocípedes perdem a prioridade em relação aos veículos a motor na maioria das situações – e a Câmara achou por bem pedir um parecer ao Instituto de Mobilidade e Transportes Terrestres para garantir a segurança dos ciclistas sem beliscar a legalidade. A resposta ainda não chegou, mas, se tivermos em conta que a legislação nacional continua a não encarar a bicicleta como um meio de transporte, e a desprezar os direitos e a segurança dos utilizadores da bicicleta, não será fácil prever o sentido do parecer do Instituto de Mobilidade e Transportes Terrestres.
Deixo apenas mais uma nota, para evitar confusões. Almeirim não é a única autarquia do País que está a pensar a questão da mobilidade sustentável como um factor fundamental para a qualidade de vida dos munícipes. De Norte a Sul, há outras câmaras (como Aveiro, Murtosa, Leiria, Almada ou Cascais) que, de alguma forma, já começaram a trabalhar para a melhorar as condições das deslocações diárias das populações e para reduzir o respectivo impacto ambiental e económico. Almeirim é apenas um exemplo do que uma autarquia pequena, com poucos recursos pode fazer na prática. O que está bom de ver é que não basta a iniciativa e a vontade das autarquias, se o poder central não estiver verdadeiramente interessado em promover o uso quotidiano de transportes não poluentes.
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O leão e a raposa
Da reportagem sobre a mortalidade de fauna selvagem nas estradas retive vários dados interessantes, mas deixo uma impressão com que fiquei a posteriori: o desconhecimento que existe em relação à fauna selvagem, mesmo à mais abundante em Portugal.
Há várias espécies de carnívoros que são relativamente comuns no território nacional, da raposa, à fuinha e ao texugo, da geneta, ao sacarrabos e à lontra. Os vídeos que a Marta Serronha e a Rita Mateus nos cederam mostram essa grande diversidade que muitos citadinos não conhecem. Quando mostrei as imagens a alguns colegas, perguntaram-me em que país é que tinham sido captadas e ficaram admirados quando eu disse que tinham sido captadas no Alentejo. Aqui tão perto.
Por serem, na sua maioria, carnívoros com hábitos nocturnos, não são facilmente observados, mas existem e é importante que a população em geral saiba da sua existência e conheça um pouco da sua ecologia. Ora, por vezes as pessoas conhecem os animais de mitos e fábulas – a raposa matreira, o lobo mau, etc. – e nada sabem sobre a sua realidade.
A Clara Grilo comentou que, por vezes, se dá conta que os portugueses sabem mais sobre a fauna de África, por causa dos programas sobre vida selvagem da BBC, do que das espécies que ocorrem em Portugal. Pois é. Se calhar, sabemos mais sobre o leão africano do que sobre a raposa, esse carnívoro com uma enorme capacidade de adaptação, que pode ser encontrado de norte a sul do país, do litoral ao interior.
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Cherovias e um molho de interrogações
Ao sachar a terra para tirar as ervas daninhas à volta das culturas, José Miguel Fonseca vai falando sobre a "Colher para Semear" e sobre as variedades tradicionais. Quem diria que há centenas de variedades de feijão ou de maçã? Quando vamos às compras encontramos quase sempre as mesmas. Contam-se pelos dedos das mãos. Quem diria que há espécies saborosas e nutritivas como a cherovia ou o chícharo? A primeira, uma raiz parecida com a cenoura; a segunda, uma leguminosa semelhante ao grão-de-bico. A maioria dos portugueses desconhece provavelmente a acelga e o almeirão, uma hortaliça parecida com a alface, excelente em saladas.
Há uma enorme diversidade de espécies e de variedades quase desconhecidas de quem vive longe do campo. Mas essa enorme diversidade já foi ainda maior e tem vindo a perder-se. Os dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) são esmagadores. Ao longo da História, o Homem cultivou mais de 7 mil espécies de plantas para satisfazer a fome. "Hoje apenas 150 espécies de plantas estão a ser cultivadas e a maioria das pessoas alimenta-se de apenas 12 espécies de plantas". Todas as outras espécies desapareceram ou estão em vias de desaparecer. Essa "perda de diversidade põe em risco a própria segurança alimentar", diz a FAO, e basta relembrarmos a história da grande fome, causada pela praga da batata no séc. XIX, para percebermos o erro que pode ser basearmos a nossa alimentação em muito poucas espécies.
Para alimentar uma população mundial em crescimento, e a viver cada vez mais concentrada em cidades, a agricultura mudou radicalmente, da subsistência e da pequena produção para a agricultura industrial. Tudo o que veio por arrasto – desde as sementes híbridas e transgénicas, aos fertilizantes e aos pesticidas químicos, ao abuso da água, à utilização intensiva dos solos, ao abastecimento e ao transporte a milhares de quilómetros –, coloca hoje uma série de questões. Não será inevitável o regresso de uma parte da população ao mundo rural? Não será prudente a criação de hortas dentro das próprias cidades? Será este modelo sustentável a longo prazo?
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Grifos e companhia
O projecto «Grifos na Web» tem levado até ao cidadão comum a vida dos grifos, uma espécie quase ameaçada em Portugal. A ideia nasceu no âmbito do programa Público na Escola e tem como principal objectivo chamar os mais novos para as questões da conservação da natureza.
Projectos como este são cada vez mais necessários, num país onde o próprio Ministro do Ambiente afirmou numa entrevista que o "ambiente não pode travar o desenvolvimento" e onde é recorrente sermos instados a escolher entre a conservação da natureza e o desenvolvimento, ou a escolhermos entre uma determinada espécie e as pessoas. Esta discussão parte da ideia preconcebida de que uma coisa é incompatível com a outra, ou que uma coisa tem de ser sacrificada por ser menos importante do que a outra. Ora não é nada disso.
A conservação da natureza e o desenvolvimento humano não só podem ser perfeitamente compatíveis, como em muitos casos estão intimamente ligados. Se não fosse a diversidade biológica que o planeta ainda tem, seríamos muito mais pobres, e não estou a referir-me à perda de belas paisagens. Não teríamos uma alimentação variada, nem defesas contra pragas e enfermidades, nem forma de curar muitas doenças, nem inúmeros recursos que nos permitem ter qualidade de vida. Não só agora como no futuro.
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Economia do ambiente
O Fórum Permanente para os Assuntos do Mar pretende mobilizar a chamada sociedade civil para debater e reflectir sobre as muitas questões ligadas aos oceanos. É um apelo à participação pública, num país onde se costuma dizer que os cidadãos não exercem a cidadania para além do voto. Para já, o Fórum conta com cerca de 500 adesões e uma direcção eleita. Somos 10 milhões, 76% a viver junto à costa, por isso, 500 pessoas juntas para trocar opiniões e gerar conhecimento sobre o mar pode parecer pouco, mas é um começo.
Estamos num excelente momento para começar a valorizar mais a participação de cada um na definição de estratégias e políticas sustentáveis sobre os grandes temas que nos afectam a todos. Cada vez faz mais sentido o desafio lançado na Conferência das Nações Unidas para o Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992 de “pensar global e agir local”. Com uma população em crescimento rápido a caminho dos 7 mil milhões de habitantes, a exigir recursos (alimento, transporte, energia) a um ritmo alucinante, com um modelo de desenvolvimento assente nos combustíveis fósseis, o Planeta ressente-se e ressentem-se todos os que nele vivem. Nos oceanos, a biodiversidade tem diminuído de forma avassaladora. Dois terços das unidades populacionais de espécies de alto mar, como o atum ou o espadarte, estão à beira do colapso. Um estudo publicado na revista Science em 2006 antevê que, se o ritmo de exploração e degradação dos oceanos não abrandar, em 2050 a quase totalidade das espécies selvagens terá desaparecido dos oceanos. Actualmente já 40% do pescado que consumimos provem de aquacultura. O que parecia inesgotável é afinal um ecossistema vulnerável à pesca excessiva, à poluição e às alterações climáticas.
Na semana passada, durante o 1º encontro nacional de empresas aderentes ao compromisso Business & Biodiversity, promovido pelo Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, Alfredo Cunhal da Herdade do Freixo do Meio falava da necessidade de estabelecermos uma relação ética com a natureza de que fazemos parte. Há muito que concordo com esta ideia, mas, mesmo pondo a ética de lado, não será do próprio interesse do homem gerir com inteligência e racionalidade recursos que são escassos? Não é só protecção do ambiente; é economia.
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Terra acompanhada
Visitei o projecto da Liga para a Protecção da Natureza em Castro Verde pela primeira vez em 2002, pela mão da então presidente da organização Helena Freitas. Agora, a nossa anfitriã foi a Rita Alcazar. É idêntico o orgulho e o prazer com que ambas mostraram o trabalho desenvolvido. Um trabalho que tem merecido distinções nacionais e internacionais, como o prémio Milénio Expresso, o prémio europeu Henry Ford de Conservação da Natureza e tantos outros. Numa década, as populações de aves da estepe cerealífera aumentaram significativamente. No caso das abetardas, a população, que estava francamente ameaçada, triplicou. No cante alentejano dos Ganhões de Castro Verde oiço: "tanta terra abandonada...", mas nas herdades da LPN não se sente esse abandono, mas sim uma vitalidade e um esforço conjunto de ambientalistas, agricultores e autarquia.
Desde logo, o começo desta história contém uma reunião singular de vontades. Se não fosse a luta do movimento ecologista contra a florestação da região de Castro Verde, se não fosse a própria Câmara Municipal a querer manter a agricultura extensiva em vez de eucaliptos, se não fosse a autarquia a proibir no Plano Director Municipal a florestação em 85% da área do concelho, se não fosse a Associação de Agricultores do Campo Branco a procurar apoios para fazer agricultura com cuidados ambientais, se não fosse a LPN a conseguir comprar terrenos que já estavam na posse da indústria da pasta de papel, se não tivesse sido criada a Zona Especial de Protecção de Aves Selvagens de Castro Verde, se não tivesse surgido uma medida agro-ambiental como o “plano zonal”... Hoje, terra a perder de vista no Baixo Alentejo poderia ser um lugar desencantado.
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O Jaguar e a bicicleta
Na segunda-feira passada, acompanhámos Paulo Guerra Santos, no âmbito do trabalho de campo do projecto “100 dias de bicicleta em Lisboa”. Ele tinha lançado um convite no blog do projecto, para um encontro com utilizadores da bicicleta. Na conversa descontraída a que assistimos à tardinha, um desses utilizadores diários da bicicleta dizia: "Podemos parar num semáforo ao lado de um Jaguar. As pessoas não olham para o Jaguar, olham para nós".
Talvez alguma coisa esteja a mudar. Mas, em Portugal, o automóvel ainda é, para muita gente, sinónimo de posição social. Quanto maior e mais caro for o carro, mais valorizada a pessoa que o conduz. E por mais que o discurso oficial, politicamente correcto, diga que é preciso reduzir o número de viaturas particulares nos centros urbanos, a prática das políticas públicas e empresariais segue caminho oposto.
Dois exemplos: O governo aprova uma nova travessia do Tejo, supostamente para o comboio de alta velocidade, mas junta-lhe a componente rodoviária que fará inevitavelmente desaguar mais tráfego na capital. As empresas dão carros aos quadros superiores como suplemento de salário. Pela informação que recebi um terço dos utilizadores de veículos em cidades não conduzem o seu próprio carro mas um veículo de empresa, que usam como se fosse uma viatura particular, a custo zero. Querem mais incentivos à utilização do carro?
O que eventualmente pode estar a mudar não vem nem do Estado nem das empresas; vem dos cidadãos. De cidadãos que querem um novo estilo de vida. Ainda são poucos, é certo, mas o número está a crescer. Pessoas que, apesar da falta de condições, optam pela bicicleta como meio de transporte. São menos carros e menos poluição na cidade. Contra o stress, o congestionamento, e pelo ambiente, pela qualidade de vida e pelo puro divertimento que andar de bicicleta pode representar.
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