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João Garcia é o primeiro e único alpinista português com seis (agora sete) montanhas de oito mil metros no currículo - e só existem 14. Esta Primavera, o objectivo foi o Kangchenjunga. A terceira montanha do mundo tem 8.586 metros, está encravada na fronteira oriental do Nepal com a Índia, a leste do Everest.

O jornalista da SIC Aurélio Faria participou na primeira fase da expedição. Uma aventura acompanhada aqui, dia a dia.

26-05-2006


Balanço

Áudio: Entrevista com João Garcia
(clique para ouvir ou download)


João Garcia no glaciar de Yalung – Kangchenjunga

”Foi um belíssimo começo, comecei com ‘chave de ouro’, numa montanha muito técnica, isto é a motivação para a minha rapaziada, para gerações vindouras, o princípio de oito cumes, oito expedições,… cinco anos,… a pouco e pouco, vou motivar portugueses…”

No início de uma marcha de quatro a cinco dias, até Suketar, apanhará o avião para Kathmandu, João Garcia é um alpinista ainda extenuado pela conquista do Kangchenjunga, mas feliz por ter atingido o objectivo da expedição. O cume de 8556m foi alcançado no dia 22 de Maio, à primeira tentativa, numa montanha onde quase todos os companheiros de expedição já tinham estado anteriormente.
João mostra-se também contente consigo próprio, por ter salvo a vida de António Coelho. O companheiro português de expedição sofreu uma apendicite a 6100 metros de altitude, foi acompanhado pessoalmente até Kathmandu, numa operação de resgate que fez João perder uma semana de preciosa aclimatação à altitude. “É certo que numa expedição não controlamos tudo, mas a primeira mensagem é que não abandonamos os nossos, a segunda, é que não desistimos à primeira…”.


João Garcia a 2000m, na região do Kangchenjunga

Com a conquista do Kangchenjunga, João Garcia considera ter ganho também motivação para interessar os portugueses pelo alpinismo e pelos desafios inesperados: ”…vamos demonstrar à sociedade que se conseguimos chegar lá acima com tanta dificuldade, com tanta adversidade, com tanto factor que não controlamos, mas conseguimos superar, acho que a sociedade em geral também vai conseguir melhorar, ir mais longe, vai conseguir acordar deste adormecimento (…), quem é que não quer chegar ao topo?...”

Quando chegar à capital nepalesa, no início da próxima semana, o alpinista português não terá ainda o descanso merecido: ”Quando chegar a Kathmandu, espero começar já a trabalhar na organização da expedição do Outono, que é no Tibete, e não no Nepal…, ao Sishapangma…, que é a mais pequena destas montanhas de 8000m, vou começar já a trabalhar na logística, nos preparativos…, somos cinco escaladores portugueses e uma portuguesa, com certeza haverá muito mais histórias…”.

Aurélio Faria
Jornalista
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24-05-2006


Descanso… e regresso


”Acordei com bastante sede, conseguiria beber um litro de uma vez... O pequeno-almoço foi animado com música latina a jeito de comemoração. Ovos, bacon, queijo, tostas a fazer de pão, café com leite... Que fome (!), e no final ainda abrimos uma lata de fruta em calda... E se não saíssemos da cozinha, não tirávamos os olhos do cozinheiro como se esperássemos mais uma surpresa...
Colocámos tudo a secar, parecia uma feira da ladra... Tendas, botas, fato, saco cama...”


”Amanhã – 25 de Maio - descemos a Ramche, e dali sao normalmente mais 4 dias a Suketar, onde apanhamos uma avioneta( depende do tempo)” para Kathmandu.

João Garcia deverá regressar a Portugal na primeira semana de Junho.

Aurélio Faria
Jornalista

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A descida



”Chego ao C4 onde tenho o telefone, e para meu espanto já se sabe em Portugal. O Campo Base em contacto connosco via rádio apressou-se a ligar a minha mãe, para um número de emergência que tinha deixado caso acontecesse algo de mal. As notícias eram boas, mas a Senhora apanhou cá um destes sustos...
Estamos de rastos e ainda a 7700m de altitude. Tusso um pouco e por mais contente que esteja, só quero dormir. A mente diz-me que tenho de beber mas o corpo quer é descansar, adormeço ao som de uma música mental.”


Tão ou mais perigosa que a subida é a descida do cume. A maioria dos acidentes registados nos Himalaias ocorre depois da conquista dos altos cumes de 7 e 8 mil metros.

Depois de 24 horas de esforço ininterrupto para atingir o cume do Kangchenjunga e regressar ao Campo 4, João Garcia e Ivan Vallejo têm ainda de arranjar energias para regressar ao Acampamento Base, com todo o material acumulado nas últimas semanas para a ascensão final.

”Já não temos gás e se quisermos continuar a beber temos de descer. Temos de descer de todas as formas, temos de descer rapidamente ao Campo 3. A descer é naturalmente mais rápido, mas agora desço 100 passos e sento-me… Mais 100 passos, e volto a sentar-me. Tento passar por cima de vestígios da nossa subida para apanhar a neve mais rija, mas por vezes o pé afunda-se até ao joelho.
Chegados ao Campo 3, aqui está a tendita do Ivan, derretemos neve e bebemos. Até satisfazer Aproveitamos água quente para desmanchar a tenda derretendo os cantos congelados em vez de a martelada. Está calor, e volto a mudar de roupa. Agora o grande fato vai na mochila, mas que mochila (!). Agora levo de uma vez tudo aquilo que fui subindo aos poucos. Via rádio sabemos que vem Fernando e o seu Sirdar Ang Nuro ao nosso encontro, com comida e bebida. Essa informação reavivou-nos a alma. Desço pela última vez e com um calor cortante as cordas fixas dos suíços até ao ‘Grand Plateaux’ como lhe chamaram. Ao longe já vejo uns pequenos pontos a moverem-se. Devem ser eles, de todas as formas cá em cima só estávamos nós.
O encontro entre o Equatoriano e o Colombiano foi maravilhoso. Quem não os conhecesse, não imaginaria quem tinha feito cume, verdadeiramente foi um encontro de alegria. Também fiz parte desse encontro no glaciar que entretanto começa a ficar a sombra. Partilharam as cargas connosco. Voltamos ao Campo1 onde também já nos tinham desmanchado outras tendas. Começa a fazer escuro e preocupo-me nos últimos lances de cordas. Sou o primeiro a descer para desenterrar cordas, mas com mais risco de receber com gelo projectado pelos pés destes. Já não uso descensor, enrolo a corda no braço e ala.
É menos seguro, mas mais rápido e às vezes, velocidade também é segurança. Cá em baixo vejo mais luzes á nossa espera. São alguns carregadores, e ‘staff’ da cozinha à nossa espera com mais chá, e sopa.

São 21h, estamos de regresso ao CB. Quero ir dormir mas eles têm uma surpresa, um festim com bolo de 'Congratulations' escrito.
Ainda arrasto a mochila para a porta da tenda, onde durmo uma boa noite.”
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No cume nevado do Kangchenjunga



No Diário, escrito já depois do regresso do cume de 8556m, João recorda com emoção os momentos finais da conquista do Kangchenjunga – “a Montanha dos 5 Tesouros das Neves Eternas”:

”Acabámos por sair da tenda as 3h em direcção ao cume. A noite estava estrelada tal diziam as previsões. Não há vento, mas mesmo assim está frio. Frio esse que incha os pés. Logo após a saída da tenda, tenho de parar, e para espanto do Ivan, descalço uma bota e tenho de tirar uma peúga do pé esquerdo. Este estava a cortar a circulação e se não o fizesse, teria de descer. Subimos umas 5h de canal nevado que a dois teríamos de ‘picotar’. Uma hora ele, uma hora eu, e assim sucessivamente. Assistimos a um magnifico nascer do sol em que a sombra do ‘Kangch’ esta no horizonte como uma pirâmide gigante e escura. No final deste grande corredor nevado temos uma cortada direita também ainda por neve mas agora, devido a sua inclinação, temos a vista cordas velhas e vestígios de passagem humana.
Agora descemos para meia hora cada um. Atravessamos já algum terreno misto com rocha onde progredimos melhor. A dada altura, uma corda velha mostra-nos o que ainda falta. Afinal o cume está ainda muito mais longe do que pensávamos. Grande golpe! É mais ou menos meio-dia, e ainda estamos a umas 4-5h de distância. Voltamos à neve, subimos literalmente ao ‘fio da navalha’ em que conseguimos ver a face Norte, do outro lado, e atravessamos tudo em rocha por debaixo do cume rochoso. Alguns passos delicados de escalada em rocha, e quase contornamos este monólito. Mais uma corda velha cuja camisa desaparecera, e quase se adivinhava. Ivan desapareceu-me, e ao virar do grande último calhau, EIS O CUME!!!. PARA MEU ESPANTO ESTAVA NEVADO!!!
Filmo Ivan deitado de joelhos, e depois apercebo-me que chora. Chora de emoção, do esforço, de sacrifício. Filmo ao redor de todos aqueles cumes que toda a expedição estão mais altos e agora estão mais baixos: Yalung Kang…, Jannu…, os Twins... Os glaciares a perder de vista, lado Indiano ou Nepalês. Conseguimos até ver picos longínquos como o Everest, ou o Makalu... É bastante tarde, mas o dia está lindíssimo. Sinto-me calmo e sereno como se todas as preocupações do Mundo desaparecessem. Já passa das 17h, e temos de descer se quisermos ter ainda um pouco de luz no final da descida ate ao acampamento. De qualquer maneira, o final é pouco técnico, e está balizado por bambus... Qual GPS!... “
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Rumo ao cume 2



”Bem cedo saio do Campo 2, despeço-me do Fernando. Logo vejo que não nevou assim tanto, e fico contente. Mesmo assim, mais uma vez tenho de 'trilhar' entre campos. À chegada ao Campo 3 (7100m) tenho Ivan à minha espera com líquidos. Recebe-me ‘también con mucha ilusion’... Também com esperança de que só os dois consigamos alcançar este cume”
. Na companhia do alpinista do Equador, João Garcia prossegue a ascensão até ao Campo 4, termina a penúltima etapa antes do ataque ao cume do Kangchenjunga.

”Da outra vez tinha aqui deixado o meu fato de cume, um equipamento demasiado quente a baixa altitude mas que a partir daqui se torna útil. Também deixo a partir daqui os ‘polares’ e o ‘Goretex’. Continuamos mais 4h de trilho até ao Campo 4. Chegamos já um pouco tarde, à sombra, e tenho frio, já tinha mais 4h nas pernas do que o Ivan. Abaixo teria calor mas agora na sombra, as temperaturas descem para os 20 negativos... São por volta das 5 da tarde, e devemos partir pela 2h da madrugada. Decidi descansar, e aquecer-me primeiro, e depois derreter neve, e hidratar-me”.
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Rumo ao cume 1



”Sigo o meu plano. Saio às 6h do Campo Base directo ao Campo 2. Aqui cruzo-me com os espanhóis, que descem muito desanimados. Vem também o colombiano Fernando que me diz que o Ivan ficou à minha espera para uma segunda tentativa. Fiquei maravilhado com a notícia de não ter de ir sozinho para cima. Além disso aumentava as nossas hipóteses, pois sei que é um escalador muito experiente, já com 12 cumes de 8000 no seu currículo”
. Assim recorda João Garcia no seu Diário o arranque da ascensão final, no passado fim-de-semana, rumo ao cume do Kangchenjunga.

O alpinista português sobe animado pela perspectiva de ter companhia. Por força das circunstâncias, os sul-americanos tornam-se a sua nova equipa: “Fernando ficou comigo no Campo 2. Falámos muito, disse que assim tão perto de um tal esforço não tinha capacidades de fazer outra tentativa…, que tinha pena, mas que também estava contente de o Ivan - monstro da altitude como lhe chamou, pudesse ter outra tentativa, que não tivesse de desistir, pois já era a segunda vez que vinha ao Kangchenjunga”.

Tal como nas últimas expedições aos Himalaias, João conta com outra ajuda e um amigo preciosos, em Portugal. ”Acho que já muita gente sabe quem é o Vítor Baia da Cidade da Guarda. Conheci-o quando fui pela primeira vez à procura do Clube de Montanhismo. Aí aprendi a escalar e não só, aprendi a cultivar amizades, vi pela primeira vez equipamentos de escalada, e a escalar montanhas. O Vítor depois do parapente, da instrução, de seleccionador também se tornou em organizador de ‘meetings’ de parapente e num especialista em meteorologia de montanha. De maneira que é a ele que acorro quando tenho dúvidas existenciais. A um amigo. Tinha recebido ‘meteogramas’, e tínhamos as mesmas conclusões. Mas mesmo assim, mantive-me em contacto para alguma alteração”.

Aurélio Faria
Jornalista
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22-05-2006


João no cume dos “Cinco Tesouros”!



“Que horas eram, Ivan?..”
Em espanhol, João Garcia pergunta ao alpinista equatoriano as horas a que atingiu o cume do Kangchenjunga. “Eram 5 horas e 6 minutos!”. A resposta pronta, também em espanhol, é bem perceptível, na conversa por telefone satélite, estabelecida com Lisboa, a partir do Campo 4.

Era já noite dentro, - 23 horas, hora nepalesa, fim da tarde em Portugal -, quando João chegou exausto à tenda montada aos 7700 metros e, depois de quase 24 horas de esforço ininterrupto na chamada “zona da morte”, se meteu no saco-cama para comunicar a conquista da terceira montanha mais alta do mundo.

O cume do Kangchenjunga, que no dialecto tibetano do Sikkim significa a Montanha dos 5 Tesouros das Neves Eternas, foi alcançado sem oxigénio artificial nem carregadores de altitude; como companheiro de cordada, o português, que contava inicialmente realizar a escalada “a solo”, teve o experiente Ivan Vallejo, o alpinista do Equador que já subiu 12 dos 14 cumes de 8000m.

“Agora já acredito e percebo quando me diziam que esta era a montanha mais dificil de 8 mil metros”. Com a respiração ofegante, João descreve as dificeis condições da ascensão final desde os 7700 metros até ao cume de 8856 metros. “O tempo estava bom, as condições meteorológicas foram favoráveis, tinha neve até ao tornozelo, mas foi ‘supertécnico’ até à última, é uma escalada mista, com muitas passagens de rocha e necessidade de fixar muitas cordas...”

Com o Kangchenjunga, alcançado esta segunda-feira, 22 de Maio de 2006, João Garcia conquistou o seu sétimo cume de 8 mil metros - e só existem 14 no mundo inteiro - e confirmou o seu valor como o maior alpinista português.

Aurélio Faria
Jornalista
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20-05-2006


O que falta



Áudio: Entrevista com João Garcia - parte 2

(clique para ouvir ou download)

Depois das peripécias das últimas semanas, João Garcia “ataca” finalmente a montanha que alguns alpinistas dizem “ser o mais cansativo e desafiador cume de 8000 m…”.

“Com cume ou sem cume, de certeza que vai ser uma magnifica experiência…” Horas antes da ascensão, o alpinista relembra as declarações da semana passada, quando subiu até aos 7800m, e voltou para baixo, por falta de aclimatação.

Do Acampamento base até aos 8856m, esta será uma escalada solitária, por duas etapas e com duração prevista de três dias.

Na primeira etapa, o alpinista subirá dos 5500m, até ao Campo 2, a 6800m. Na madrugada seguinte, depois de entrar na chamada “zona da morte”, onde não há qualquer forma de vida permanente, o objectivo será atingir o Campo 4, a 7700m, e última paragem antes do cume.

Em passo muito lento, numa progressão máxima de cem metros por hora, a subida final terá entre dez a doze horas de duração, isto se não houver muita neve nem vento e o organismo de João estiver devidamente aclimatado ao ar rarefeito – a esta altitude há apenas 30 por cento do oxigénio respirado ao nível do mar.

A escalada será feita pela via clássica, usada desde a primeira ascensão em 1955, pelo inclinado corredor de neve baptizado de “Gangway”, até atingir a passagem entre o Kangchenjunga e o Yalung Kang, um dos cumes secundários, e acabará numa fissura de 6 metros: “É um ‘passo’ de 4º grau…, fácil para qualquer um, mas muito difícil a 8500 metros, porque está muito perto do cume…”

E no fim, ainda é preciso descer. “O cume é sempre um bónus” relembra João, determinado em alcançar a sua sétima montanha de oito mil metros.

”Continuo a achar que portugueses são tão bons como os outros, temos que nos mentalizar…, aqui estou bem mentalizado, sei que tarefa é seis vezes mais difícil, se houver neve fofa e ‘trilho para fazer’, terei que fazer tudo sozinho, não me vou revezar com mais ninguém, mas acredito em mim, e nas minhas capacidades e vou tentar”.

Aurélio Faria
Jornalista
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Em solitário...

Áudio: Entrevista com João Garcia - parte 1
(clique para ouvir ou download)

“Tentarei amanhã dia 20 de Maio, ir para Campo 2, a 6800m, no dia seguinte irei tentar directamente o Campo 4, a 7700m. Depois dia 21 para 22, irei tentar sozinho o cume do Kangchenjunga”.

Se os planos correrem conforme o previsto, João Garcia ficará para a história do Himalaísmo como um dos poucos alpinistas a conquistar “a solo” e sem oxigénio artificial a terceira montanha do mundo.

A escalada solitária acaba por ser “fruto do acaso”… A operação de resgate, por doença súbita, de António Coelho, o outro alpinista português da expedição, obrigou João a passar uma semana em Kathamandu: ”não devemos abandonar os nossos”, justificou sempre João, quando inquirido sobre o abandono temporário da expedição.

De regresso à montanha, encontrou os companheiros já prontos para o ataque ao cume: ”a minha equipa adiantou-se na aclimatação, aproveitou a meteorologia favorável, no passado dia 15 subiram ao cume do Kangchenjunga; tentei aproveitar o balanço, mas não me senti à altura aos 7800m, seria muito arriscado, só tinha passado duas noites a 6100m, muito ousado ir aos 8500m de esticão, decidi voltar cá para baixo para repousar…” Insuficientemente aclimatado, o ataque ao cume na altura errada poderia ter sido fatal, provocando um edema pulmonar ou cerebral.

No Acampamento base, a estratégia para atingir o cume de 8586m voltou a ser repensada: ”Havia duas outras equipas, uma sul-americana e outra de espanhóis, esses seis estão já a tentar cume, e eu, como não estava no “timing” deles, não me restava senão tentar sozinho”. Com previsões meteorológicas favoráveis, já aclimatado à altitude depois de duas noites a 7700m, na última noite passada no Acampamento base, a decisão de subir sozinho até ao cume está já bem pensada: ”é por um lado uma grande solidão, mas por outro lado um grande privilégio, quando tentar o Kangchenjunga, estar sozinho na montanha. Tenho algum medo, algum respeito, mas é uma tarefa possível, e se não acreditarmos nos nossos sonhos, não sei o que poderemos fazer na vida!...”

Aurélio Faria
Jornalista
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16-05-2006


Bom senso a 8 mil metros





Entre os alpinistas, a pressão para atingir o cume do Kangchenjunga era quase tão grande como a própria montanha. Em causa, para cinco dos actuais seis elementos da expedição - a excepção era João Garcia -, estavam milhares de dólares já pagos para escalar ainda esta época o Lothse, na vizinhança do Everest; no caso do australiano Andrew Lock, o segundo objectivo era o Shishapangma.

Tudo estava planeado até ao mais ínfimo pormenor e nos primeiros momentos até correu conforme o previsto. Tal como os companheiros, João acordou ainda de noite, derreteu neve com o fogão, “fez líquidos” para se hidratar convenientemente, tomou o pequeno-almoço reforçado e saiu ao nascer do dia, da tenda, montada a 7700 metros, rumo ao cume, preparado mentalmente para uma ascensão e respectiva descida, que deveriam demorar quase 24 horas.

Mas pouco mais de duas horas de progressão, difícil, ainda antes de atingir os 8 mil metros, foram suficientes para João perceber que ainda não estava em condições físicas perfeitas para chegar ao cume, e voltar vivo, sem oxigénio artificial, nem carregadores de altitude, expedientes da maioria das expedições comerciais, mas que o alpinista português sempre recusou usar.

Insuficientemente aclimatado à altitude, João tomou a decisão mais dificil para qualquer alpinista: renunciou ao cume, e voltou para baixo. Depois de dormir 2 noites no Campo 4, para “ganhar” a tão desejada aclimatação, regressou ao Acampamento base para recuperar, e planear novo ataque ao cume.

Na origem desta “contrariedade” que atrasou os planos de Garcia está a ida não prevista a Kathmandu, em finais de Abril, e o envolvimento pessoal no salvamento de António Coelho, o companheiro de expedição que sofreu uma apendicite a 6100 metros.

Já convalescente, em Portugal, “Tozé” é um alpinista eternamente agradecido, mas preocupado com o amigo, e com “um peso na consciência”: ”Não é por acaso que o João é o melhor alpinista português..., tecnicamente e como pessoa... Nunca hei-de esquecer o que fez por mim, ajudou-me a saír vivo da montanha... Mesmo sabendo que podia ‘estragar as coisas’, perdeu uma semana preciosa para a aclimatação, fez questão de ficar comigo em Kathmandu até eu ser operado, e ter a certeza que eu ficava bem...”

No Acampamento Base, João Garcia repete o que disse nas entrevistas antes da partida: ”Considero-me uma pessoa com ambição, mas com muito bom senso. Nunca gostei de pôr ‘a carroça à frente dos bois’ (...)”

“Perdida” a companhia de Tozé e dos cinco companheiros de expedição que conquistaram o Kangchenjunga no dia 14 de Maio passado, João tentará de novo o cume, no final da semana, mas desta vez, na companhia da expedição espanhola.

Aurélio Faria
Jornalista
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