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Depois das Primárias, Luís Costa Ribas acompanha e comenta as Presidenciais nos Estados Unidos.

Mais sobre as eleições norte-americanas:
  • últimas notícias e vídeos (especial)
  • perfis de Barack Obama e John McCain (slideshows c/ áudio)
  • 04-11-2008


    "I voted"



    A quem ficou intrigado com o autocolante que eu tinha na lapela durante o Jornal da Noite de hoje: é uma tradição americana. As assembleias de voto distribuem-nos a quem vai votar. Diz "I voted" (eu votei) e está aqui fica imagem.

    O autocolante tem o condão de lembrar a quem se cruza connosco na rua e ainda não votou. Vantagens mais interessantes: A cadeia Starbucks oferece café grátis a quem lá aparecer com o autocolante; a Baskin Robbins oferece um gelado... há outras iniciativas de que me esqueci. A mim chega-me o café e o gelado de limão. E chegava-me ter participado nesta eleição histórica. Também sou cidadão americano (tenho dupla nacionalidade) e apesar de ter votado em muitas outras eleições, nenhuma tem o peso histórico desta. Vamos ver o que dizem os resultados, mais logo. Não se esqueçam que há especial Eleições Americanas na SIC e SIC Notícias esta noite e actualizações de projecções e resultados aqui em noticias.sic.pt
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    4 de Novembro

    Os dados estão lançados. Os candidatos passaram quase dois anos em campanha, angariaram perto de mil milhões de dólares, falaram sobre tudo o que havia para falar. Agora fala o povo. Já começou a fazê-lo nos Estados que permitem votação antecipada e estão a fazê-lo, aos milhões, por toda a América.
     
    As sondagens fazem a previsão da vitória do democrata Barack Obama sobre o republicano John McCain. É bem provável que assim seja, mas também é possível que haja surpresas. As sondagens valem apenas para o dia e as circunstâncias exactas em que foram feitas e constituem, tão só, uma previsão do comportamento dos eleitores. Agora os eleitores estão a "comportar-se" e na madrugada de amanhã saberemos em que medida as preferências expressas condizem com as previstas.

    Seja qual for o resultado, o vencedor tem que rapidamente oferecer ramos de oliveira. E o derrotado tem que apelar à unidade. Se for Obama, para evitar que os seus apoiantes, sobretudo entre os negros, não se revoltem violentamente. Se for McCain, porque, para lá de todos os ataques políticos, demonizou pessoalmente Obama (com acusações pessoais, "amigo de terroristas", "pouco patriota", etc.) de tal forma que pode criar obstáculos à sua aceitação como Presidente legítimo em sectores da direita mais radical e religiosa. Foi o que fizeram com Bill Clinton e tentarão fazê-lo com Obama: se não podes vencê-lo (nas urnas) tenta desacreditá-lo e destruí-lo (na opinião pública).
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    03-11-2008


    3 de Novembro

    Eu sabia que alguma vez isto havia de aparecer... A campanha não ia acabar sem um anúncio na televisão envolvendo o reverendo Wright. A tendência americana para a campanha negativa é fisiológica. E o candidato que está a perder não aguenta, por muita elevação moral a que se reclame.
    O Partido Republicano no estado da Pensilvânia produziu um anúncio sobre o pastor da igreja que Barack Obama frequentou durante 20 anos em Chicago.
    O rev. Jeremiah Wright, que casou Obama e lhe baptizou as filhas, gritou um dia num sermão "Deus amaldiçoe a América" (God damn America) e esse vídeo anda há meses na internet. Para os americanos trata-se de um insulto gravíssimo. Com os republicanos desesperados e a vitória mais perto de Obama, as acusações acumularam-se nas últimas 24 horas. John McCain começou a questionar o patriotismo de Barack Obama em comícios no domingo. E apareceu este anúncio. McCain precisa desesperadamente de vencer na Pensilvânia para manter a viabilidade da sua candidatura e se este anúncio ajudar a afastar, nem que seja 2% ou 3 de eleitores de Obama, terá valido a pena. A campanha de McCain diz que não o produziu nem autorizou. Nem precisa.

    Este é o link do vídeo em causa colocado no YouTube pelo Partido Republicano da Pensilvânia: http://www.youtube.com/PennsylvaniaGOP  

    No caso improvável de o Partido Republicano retirar o anúncio, está aqui outro link: http://www.youtube.com/watch?v=RVSiOexNEFo  

    Este anúncio, no link acima, começou a passar fora da Pensilvânia com algumas alterações, e sob a responsbailidade de uma organização chamada National Republican Trust. A campanha de McCain afirma que a preferência do candidato era que estes anúncios não andassem a passar na televisão, mas que ele não pode ser o árbitro de todos os anúncios.

    Barack Obama ataca oficialmente McCain no último dia de campanha com este anúncio que encosta e cola John McCain ao presidente George W. Bush e ao vice-presidente Dick Cheney. Trata-se de uma colagem estratégica para Obama que desde o início da campanha tentou retratar McCain como clone de Bush. Não é 100% certo que o seja. Mas ao dizer que votou com Bush 90% das vezes no senado, McCain não se ajudou a si mesmo.

    Aqui fica o link do anúncio de Obama (está no YouTube): http://www.youtube.com/watch?v=HyMDe9jj8X8 

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    02-11-2008


    2 de Novembro

    A pérola do dia só pode ser este telefonema, tirado do YouTube.
    O presidente francês, Nicolas Sarkozy, telefona a Sarah Palin, candidata republicana à vice-presidência dos Estadods Unidos.

    Porque diabo havia Sarkozy de querer falar com ela? A gravação é um mimo. A forma agaiatada como ela lhe responde, as esperanças que tem de chegar à Casa Branca, daqui a oito anos - isto é que é fé na vitória na terça-feira...

    Só que o telefonema de Sarkozy para Palin não era de Sarkozy, mas de um humorista canadiano. A gravação é óptima, mas não vou contar mais para não estragar a surpresa.

    Vale a pena ouvir e ficar a conhecer um pouco do estado de espírito de Sarah Palin:

    http://www.youtube.com/watch?v=iNhA9W9IgFc
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    01-11-2008


    1 de Novembro



    Faltam três dias para as eleições e os republicanos estão desesperados... Num comício de Sarah Palin, ontem, na Flórida, gritou-se: “John McCain! Not Hussein!”.

    Na Pensilvânia, na véspera, foi: “Vote McCain, not Hussein!" Sarah Palin não desencoraja estas atitudes. Pelo contrário, espera que estas atitudes tendo subjacente um preconceito contra os muçulmanos, prejudique o candidato democrata, Barack Hussein Obama.

    Obama não é muçulmano. É cristão e sempre o foi. Mas isso importa pouco nesta fase pouco edificante da campanha, em que há republicanos a dizer que o nome de Obama inclui Hussein em homenagem a Saddam Hussein. Tanta ignorância... Saddam Hussein, o ditador iraquiano, tomou o poder em 1979 quando Barack Obama tinha 18 anos. Pailin não desencoraja estes slogans. Faz de conta que não os ouve.

    Já os discursos de John Mccain são uma amálgama incoerente de acusações e profissões de fé nas suas capacidades de governar. É comum ouvir uma frase destas: "Eu não preciso que o meu país me prove nada para eu o servir..." Depois, uma pausa seguida de: "Eu não vou gastar um bilião de dólares, mas o senador Obama vai..." Pausa: "Meus amigos, o senador Biden (vice-presidente de Obama) diz que ele vai ser testado com uma crise nos primeiros seis meses na casa Branca. Mas eu já fui testado." As frases são arranjadas como uma lista de queixas ou acusações, mas sem um fio coerente. A ideia é insistir repetidamente em tudo o que possa fazer hesitar os apoiantes de Obama, mas duvido dos resultados. McCain e Palin estão há semanas ao ataque e as sondagens não registaram movimento positivo suficiente para McCain. Há pequenas brechas aqui e ali, mas no essencial a campanha mantém uma dinâmica pró-Obama.

    O candidato democrata continua ao ataque, mas os seus discursos são mais bem estruturados. Tentam "embrulhar" as acusações a McCain em papel colorido e associá-las a uma proposta de acção dando-lhe forma mais coerente e p aspecto de uma visão para o país, Um exemplo: "95% das famílias americanas vão beneficiar das minhas reduções de impostos, mas John McCain ainda não conseguiu dar-nos uma única medida económica que ele vá tomar que seja diferente das de George W Bush". E referindo-se às dúvidas que os seus adversários levantam a propósito da sua inexperiência, responde: "O maior tiro no escuro quen podemos dar é eleger as mesmas pessoas responsáveis pela situação em que nos encontramos".

    Mas, mesmo assim, ganha prémio a frase de Arnold Schwarzzeneger num comício de McCain, ontem: "John McCain passou mais dias como prisioneiro de guerra no Vietname do que Obama passou no Senado". Fosse esse, e não a economia, o tema destas eleições...
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    31-10-2008


    30 de Outubro

    Hoje não tive tempo para escrever. Deixo-vos um artigo de opinião publicado no The Washington Post por George F. Will, um dos mais conceituados comentadores da direita americana. Quando nem ele, republicano convicto de há décadas, consegue encontrar motivo para votar em John McCain, como vai o eleitorado independente de que McCain tanto precisa fazê-lo?
    http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/10/29/AR2008102903199.html?hpid=opinionsbox1  

    E, já agora, do mesmo jornal, uma prenda de partida da Casa Branca, cortesia de George W. Bush: o Presidente cessante tenciona, ao bater com a porta, enfraquecer regulamentação federal que protege os direitos dos consumidores. Deixo aqui o artigo, sem comentários: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/10/30/AR2008103004749.html?hpid=topnews  
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    30-10-2008


    29 de Outubro

    Vamos a um pouco de aritmética... Hoje, as sondagens nacionais dão conta de uma subida de John McCain e correspondente queda de Barack Obama. A vantagem do candidato democrata caiu de 8% para 6% devido a baixa nas sondagens da Reuters, Gallup e Rasmussen. Mas, como todos sabemos, o total nacional de votos não garante a vitória nas eleições presidenciais americanas, como ficou claro nas eleições de 2000 em que Al Gore teve mais votos do que George W Bush, mas foi a este último que aturamos quase oito anos. É preciso uma maioria de 270 dos 538 votos no Colégio Eleitoral. Quem vence um estado leva os votos desses estado para o Colégio. Nas sondagens estado a estado Obama continua, até ver, à frente. E a menos que essa realidade se altere ou que as sondagens estejam espectacularmente erradas a sua vitória parece muito provável.

    Se tomarmos como base os 14 estados que, no Real Clear Politics ainda não estão solidamente no campo McCain ou no campo Obama e dermos a Obama Ohio, Nevada, Virginia, Colorado e Novo México em que o democrata lidera com mais de 7% (excepto Ohio com 5,8%) e dermos a McCain os outros nove, incluindo aqueles em que Obama lidera com pequenas margens: Florida, Georgia, Carolina do Norte, Indiana, Missouri, Montana, Dakopta do Norte, West Virginia e Arizona... Neste cenário Obama vence com 311 votos contra 227... Não há volta a dar: teria que ser um trambolhão brutal.

    Outra curiosidade que destaco é a seguinte: McCain que em 2004 foi re-eleito para o senado com 77% dos votos lidera o seu estado adoptivo, Arizona, com a parca vantagem de 5%. Obama vai à frente no seu Illinois por 23%. Se McCain não vence o Arizona, que representa no Congresso desde 1982, dificilmente conquistará a Casa Branca. Fala-se muito de como Al Gore perdeu a presidência em 2000 por causa da Florida, e por um único voto no Colégio Eleitorall. Mas se tivesse vencido o seu estado natal do Tennessee, com os seus 11 votos, teria sido presidente dos Estados Unidos. Em vez de Bush ter recebido 271 votos, teria Gore 278.

    E para concluir, à habitual recomendação do realclearpolitics.com, do pollingreport.com e do politico.com junto hoje o "Dashboard" do Yahoo, com uma boa análise da corrida vista não em termos de sondagens nacionais, mas sondagens estado a estado, com a contabilidade do Colégio Eleitoral:  http://news.yahoo.com/election/2008/dashboard
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    29-10-2008


    28 de Outubro

    Barack Obama é um homem com sorte. Noutra ciclo eleitoral a sua amizade com o terrorista William Ayers teria feito descarrilar a sua campanha para a Casa Branca. Não porque fosse um assunto central para decidir quem devia ser presidente, por ser suficientemente embaraçoso para servir de base a uma boa contra-campanha de descrédito. A campanha de John McCain percebeu isso e ainda pôs Sarah Palin a acusá-lo de "andar por aí com terroristas". Mas com o país a atravessar a pior crise económica dos últimos 80 anos, as acusações não "pegaram" e tanto McCain como Palin deixaram cair o assunto, voltando-se para as alegações de socialismo nas ideias políticas de Obama.

    Talvez por falta de tracção, a campanha de McCain nunca concretizou a ameaça de arremessar a bomba Jeremiah Wright (sobre quem escrevi há dias) para o recinto eleitoral. Mesmo assim dou crédito a McCain que, desesperado por algo que possa conter o ímpeto de Obama, e seguindo o mote do "perdido por um, perdido por mil", podia ter recorrido a essa bomba de lixo, usando-a, como outros fizeram e conseguiram, como pé-de-cabra para forçar a porta da Casa Branca.

    E a sorte de Obama alarga-se à sua relação com os jornalistas? Há uma saudável discussão nos Estados Unidos em torno das posições da comunicação social face à campanha. A campanha de McCain, como a de Hillary Clinton nas primárias, queixa-se disso. Mas há quem diga que o maior número de histórias negativas sobre McCain tem que ver com a dinâmica da própria campanha. Como não devemos ser juízes em causa própria, mas porque se trata de um tema legítimo para debate e discussão, levanto aqui o assunto, sem dar (para variar) a minha opinião... Mas é possível que vendo a história à beira da porta alguns jornalistas não a queiram escorraçar...

    Há, em todo o caso, no site Politico.com um artigo interessante sobre a simpatia que os jornalistas nutrem pelo candidato democrata: http://www.politico.com/news/stories/1008/14982.html  



     

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    27-10-2008


    27 de Outubro


    Ao ouvir os candidatos nos comícios da manhã, fiquei hoje com a impressão de que os republicanos estão a desmobilizar. Estão a perder a disciplina de mensagem. Perderam fé na vitória. Apenas McCain parece empenhado a 1000%, ainda que às vezes o seu entusiasmo excessivo pareça mais desespero do que energia.

    E parece que Sarah Palin está a trair John McCain: como já não acredita na vitória, e em vez de lutar por ela até ao fim – como o velho veterano do Vietname – e em respeito a quem a foi buscar ao merecido obscurantismo do Alaska, Palin está a fazer a sua própria campanha: não para ser vice-presidente dos Estados Unidos, mas para aproveitar a boleia da visibilidade e se lançar como líder nacional do seu partido no pós-eleições.

    No seu discurso no comício de hoje falou pouco de uma administração McCain mas gabou-se muito das suas credenciais conservadoras como governadora do Alaska. Quererá suceder a George W. Bush?

    É difícil saber se terá sucesso. George W. Bush também parecia improvável. Não parecia possível aparecer na frente da cena política americana alguém pior que ele. E eis que aparece Sarah.

    Mas os republicanos estão numa batalha pelo seu futuro. E a direita religiosa de onde Sarah Palin emergiu é a mesma que colocou George W. Bush no poder apenas para o ver terminar oito anos de Casa Branca, com uma rejeição total e sólida da sua presidência, das suas políticas e das suas doutrinas.

    Quererá o Partido republicano continuar nesta senda populista e anti-intelectual, belicosa e religioso-conservadora? Ou encontrará a sua voz com líderes mais perto do centro?
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    26-10-2008


    26 de Outubro

    Cheguei a Washington há dois dias e até já respiro melhor. Não consigo desabituar-me de gostar da cidade onde vivi 22 anos, onde a minha carreira se construiu e, sobretudo, onde o meu filho nasceu.

    Andei com o repórter de imagem Manuel Chaves por New Jersey, Rhode Island e Massachusetts a fazer as reportagens que tem passado no Jornal da Noite. Sexta-feira à noite chegámos a Washington, onde vamos continuar o nosso trabalho e a preparar o dia e a noite das eleições.

    Mas, para já, estou a disfrutar daquilo que me fazia alguma falta para encaixar estas eleições: a perspectiva americana. Ou seja, estar aqui, ouvi-los, vê-los, falar com eles. Apesar de ler diariamente os jornais e ver as televisões americanas na Net e na TV Cabo, apesar de falar frequentemente com amigos americanos, nada substitui esta garrafa de oxigénio que é chegar a Washington e respirar política. Por isso digo que já respiro melhor.

    Em roda de amigos e conhecidos já ouvi um velho amigo, judeu republicano que nunca votou democrata, dizer que vai votar em Barack Obama por acreditar que, se algo acontecer a John McCain, Sarah Palin na Sala Oval seria o descalabro para o país. Uma amiga conservadora notava, ontem: "Consegues imaginar a Sarah Palin numa reunião com Vladimir Putin? Eu não!"

    E a cidade ferve. Um velho amigo e ex-consultor republicano de eleições diz-me que as facas já estao afiadas na campanha de McCain e começam a ser cravadas nas mais variadas costas. Ao que consta, alguns staffers da campanha republicana já estão a enviar CVs a pedir emprego. Os ratos são sempre os primeiros a saltar do barco, não são?
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